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Marcelo Alcoforado

17/07/2006 11:01

A solução final

Combalida para uns, malversada para outros, para fazer frente aos compromissos com seus beneficiários a Previdência se vale sistematicamente do amparo do Tesouro. Não sem motivo, seguidos governos acalentam o sonho — pesadelo para milhões de pessoas — de desvincular o salário mínimo dos benefícios e pensões.
Ora, hão de pensar os senhores dirigentes, para que atualizar salários de pessoas que têm tão poucas despesas, já que aposentados não gastam dinheiro com roupas nem com transportes, posto que não trabalham? Por outro lado (talvez sejam assim as lucubrações), se não trabalham, não têm grande dispêndio calórico e, portanto, precisam de pouco para a aquisição dos alimentos que repõem tais calorias.
Pragmáticos, porventura avaliando que aposentados, normalmente doentios e sob o peso dos anos, não revelam grande disposição para o comparecimento às urnas, concluem pela desimportância do grupo.
O resultado é que o governo Luiz Inácio da Silva está fornido de motivos para afirmar que, a partir de 1º de janeiro de 2003, quando foi entronizado, as coisas começaram a acontecer efetivamente no Brasil.
O sonho da desvinculação, por exemplo, está em vias de se tornar realidade, a julgar pelo veto presidencial à equiparação do aumento para ativos e inativos, reduzindo o destes a 5% em vez dos 16,6% concedidos aos primeiros. Assim, neste país de aposentadorias tão pífias (apenas para os trabalhadores da iniciativa privada, diga-se), desenha-se um futuro de remuneração cada vez mais vil para os que recebem benefícios superiores ao salário mínimo, antevendo-se que um dia, graças aos percentuais de aumento diferenciados, o Brasil será, enfim, igualitário, por baixo, à luz do INSS: todos receberão o equivalente ao piso salarial.
Institui-se, assim, que a solução para o déficit previdenciário está na eliminação desses privilegiados que ganham mais de um opulento salário mínimo mensal, diminuindo-lhes paulatinamente o poder aquisitivo. Há, contudo, método mais eficaz para resolver o problema.
Quem não lembra que, convocados pelo senhor Ricardo Berzoini, então ministro da Previdência, os nonagenários se ultimavam nas filas para provar ao INSS que estavam vivos?
Repetir a convocação semanalmente, por exemplo, pode ser a solução definitiva. Digamos, a solução final. O problema é que solução final tem um quê hitleriano.

enviada por Marcelo Alcoforado






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